quinta-feira, 24 de maio de 2018

CIMEIRA ENTRE ESTADOS UNIDOS E COREIA DO NORTE CANCELADA

Combinação de fotos mostra presidente americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un (Foto: Mandel Ngan/AFP/ KCNA via KNS)


O PREVISÍVEL ACONTECEU


Donald Trump acaba de cancelar a cimeira com a Coreia do Norte por neste momento a considerar inapropriada.
Modéstia à parte, mas só quem não percebe nada de relações internacionais poderia supor que os Estados Unidos estariam interessados em negociações sérias com vista à desnuclearização da Península da Coreia. Depois de um período de ameaças recíprocas entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, em grande medida ditado por do lado norte-coreano se ter percebido que as ténues conversações em curso, vindas da administração anterior, estavam sem qualquer hipótese de prosseguir na vigência da nova administração americana, nomeadamente depois de exoneração do Secretário de Estado Rex Tillerson, e quando a passos largos se caminhava para o abismo, a Coreia do Norte surpreendeu o mundo ao enviar uma numerosa delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno, que em Fevereiro deste ano se realizaram em Pyeongchang, na Coreia do Sul.
Para este aparente volte face não terá sido indiferente a posição da Coreia do Sul que, vendo a guerra, de consequências incalculáveis, a abeirar-se a passos largos do seu território, terá, seguramente à revelia dos Estados Unidos,  diligenciado junto dos seus "irmãos" do Norte no sentido de alguns gestos simbólicos de ambas as partes deverem ser feitos para atenuar a tensão e criar um clima  favorável ao recomeço das negociações.
O que se conhece, do que se passou depois, deixa perceber que a actual liderança da Coreia do Sul estava interessada numa solução pacífica do conflito coreano. A cimeira entre os dois chefes de Estado de cada uma das Coreias terá superado as espectativas, criando um clima francamente favorável ao abaixamento da tensão e da procura de uma solução para o conflito, embora do lado americano logo se tivesse percebido que eram muitas as reticências a um acordo que pudesse satisfazer ambas as partes.
Como é óbvio, não podendo os Estados Unidos aparecer aos olhos da opinião pública internacional  interessados na manutenção de um clima conflitual entre as duas Coreias, viram-se obrigados, depois da ultrapassagem que a Coreia do Sul lhes fez, a proferir algumas palavras apaziguadoras e, inclusive, a dizerem-se dispostos a um acordo de desnuclearização da Península da Coreia. Todavia, pelo que se passava em Washington, tanto no Congresso, como na Casa Branca, seja por intermédio do conselheiro nacional de segurança, John Bolton, seja por via do vice-presidente, Mike Pence,  seja por obra do novo secretário de estado, Mike Pompeo, bem como do errático presidente, Donald Trump, logo se percebeu que o acordo de paz a que os americanos estavam dispostos a dar o seu assentimento não andaria muito longe de uma capitulação pura e simples da Coreia do Norte.
É natural que a Coreia do Norte tenha compreendido isto desde o primeiro momento, sem prejuízo de ter querido testar até onde iam realmente as exigências americanas. Temendo que as palavras proferidas em Washington pudessem  não estar a ser devidamente compreendidas por todos os intervenientes no conflito coreano, os americanos não tiveram dúvidas em comprometer directamente a Coreia do Sul, exigindo a realização de manobras militares conjuntas nas vésperas da hipotética cimeira  entre Donald Trump e Kim Jong-un.
Depois das ameaças mais ou menos veladas ou  ostensivas de elementos da administração americana, com "provas dadas" no relacionamento com outros países, ficou claro aquilo que já se sabia e que vale tanto para a administração Trump como valia para a administração Obama - os Estados Unidos não aceitam uma Península coreana desnuclearizada, embora, o obviamente, aceitem a capitulação mais ou menos incondicional da Coreia do Norte.
Infelizmente, o que se está passando na Coreia não representa nada de novo. É apenas mais uma manifestação da política imperial americana. Da política que passou a hostilizar a Rússia, cercando-a, depois de ter percebido que não a poderiam "domesticar" ; da política que invadiu o Iraque; da que criou o caos na Líbia, depois de ter derrubado Kadhafi; e da que  se prepara para criar um conflito de proporções inimagináveis no Médio Oriente, se atacar o Irão.
Para terminar, apenas sublinhar que a agressividade americana à escala planetária tem subido de tom na razão inversa da sua incapacidade para dominar o mundo. E isto é muito grave e não augura nada de bom...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

SOBRE A GERAÇÃO DE 60 e o MAIO 68



SOBRE UMA ANÁLISE DE TONY JUDT
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Tendo em conta a comemoração dos 50 anos do Maio 68, acho que terá interesse ler esta análise de Tony Judt da geração de 60, que faz parte do livro publicado entre nós pelas Edições 70 com o título: “Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos”, 2010, com o título original em inglês,” Ill fares the Land”, do mesmo ano.

Embora a geração de 60 se não tenha deparado com os mesmos problemas em todo o mundo ocidental e o contexto em que viveu tivesse assinaláveis diferenças de país para pais, como é, por exemplo, o caso português, nem por isso este retrato deixa de corresponder, no essencial, ao que dela ficou para o futuro. No caso português, por um lado, o facto de essa geração ter sido contemporânea de uma guerra colonial que condicionava o seu futuro, e, por outro, o facto de em Portugal existir um uma ditadura fascizante, fez com que valores e princípios das gerações do pós guerra continuassem a ter muita influência na sua formação. Daí a matriz do 25 de Abril e do movimento revolucionário que se lhe seguiu, que nada tem a ver com o Maio de 68, nem com os princípios individualistas que acima de tudo o marcaram.

O que não significa, não obstante o muito que entre nós ficou do 25 de Abril, principalmente por o movimento revolucionário ter operado um verdadeiro desmantelamento do Estado fascista, que a herança daquele movimento e os princípios sob cuja égide a geração de 60 se formou nos países capitalistas do Ocidente não tenham projectado a sua influência na construção das sociedades em que hoje vivemos.

A análise que a seguir se transcreve é apenas uma pequena parte – O legado dos anos 60 - do livro acima citado e apesar de estarmos substancialmente de acordo com o que nela se diz, isso não significa que a análise específica do Maio 68 não exija outros desenvolvimentos. Todavia, o que interessa é sublinhar o carácter individualista do movimento e ter consciência de que foi essa herança aliada (objectivamente) à Escola de Viena dos anos trinta, renascida em Chicago vários decénios depois, e o movimento neoconservador, inspirado no trotskismo americano dos anos trinta, que “construíram” a matriz das sociedades capitalista em que hoje vivemos.
Tony Judt:

“ (…) Acima de tudo, a nova esquerda – e o seu eleitorado, na sua maioria jovem – rejeitava o colectivismo herdado dos seus antecessores. Para uma geração anterior de reformadores, de Washington a Estocolmo, fora evidente que a “justiça”, a “igualdade de oportunidades” ou a “segurança económica” eram objectivos comuns que só podiam ser alcançados pela acção conjunta. Quaisquer limites da regulamentação e controlo excessivamente intrusivos e vindos de cima eram o preço da justiça social – e um preço que valia a pena.

Um grupo mais jovem via as coisas de modo muito diferente. A justiça social já não preocupava os radicais. O que unia a geração dos anos 60 não era o interesse geral, mas as necessidades e direitos de cada um. O “individualismo” – a afirmação da exigência de cada pessoa da máxima liberdade privada e da liberdade irrestrita para a expressão de direitos autónomos, e de vê-los respeitados e institucionalizados pela sociedade em geral – tornou-se a divisa da esquerda. Fazer “o que se entender”, “não se reprimir”, “fazer amor, não a guerra”: não são metas desprovidas de atracção intrínseca mas na sua essência são objectivos privados, e não bens públicos. Não admira que conduzissem à afirmação muito difundida de que o “pessoal é político”.

A política dos anos sessenta evoluiu assim para um conjunto de reivindicações individuais perante a sociedade e o Estado. A “identidade” começou a apoderar-se do discurso político: identidade privada, identidade sexual, identidade cultural. Daqui foi um pequeno passo para a fragmentação da política radical, a sua metamorfose no multiculturalismo. Curiosamente a nova esquerda manteve-se extremamente sensível aos atributos colectivos das pessoas de terras distantes, onde pudessem ser reunidas em categorias sociais anónimas como “camponês”, “pós-colonial”, “subalterno” e afins. Mas internamente reinava, incontestado, o indivíduo.

Por muito legítimas que sejam as reivindicações dos indivíduos e a importância dos seus direitos, sublinhá-los acarreta um preço inevitável: o declínio de um propósito de vida partilhado. Outrora procurava-se na sociedade – ou classe ou comunidade – o vocabulário normativo individual: o que era bom para todos era por definição bom para qualquer um. O inverso, porém, não é válido. O que é bom para uma pessoa pode ter ou não ter valor ou interesse para outra. Os filósofos conservadores de uma época anterior compreendiam isso bem, razão pela qual recorriam à linguagem e imagética religiosas para justificar a autoridade tradicional e as suas exigências sobre cada indivíduo.

Mas o individualismo da nova esquerda não respeitava nem o propósito colectivo nem a autoridade tradicional: ele era, no fim de contas, novo e de esquerda.

O que lhe restava era o subjectivismo do interesse e desejo privados – e medidos em privado. Isso, por sua vez, favorecia o recurso ao relativismo estético e moral: se algo é bom para mim não me cabe averiguar se é bom para mais alguém – e muito menos impô-lo (“faz o que entenderes”).

É verdade que muitos radicais dos anos 60 eram apoiantes bastante entusiásticos de escolhas impostas, mas só quando essas afectavam povos distantes, dos quais pouco sabiam. Em retrospectiva, é surpreendente reparar na quantidade dos que na Europa Ocidental e nos Estados Unidos exprimiram entusiasmo pela “revolução cultural” ditatorialmente uniforme de Mao Tse-tung, enquanto internamente definiam a reforma cultural como a maximização da iniciativa e autonomia privada.  

Tantos anos depois, pode parecer esquisito que tantos jovens dos anos 60 se identificassem com o “marxismo” e com projectos radicais de todo o género, ao mesmo tempo que se dissociavam de normas conformistas e propósitos autoritários. Mas o marxismo era um tecto retórico sob o qual estilos de dissensão muito diferentes podiam agrupar-se – sobretudo porque oferecia uma continuidade ilusória com uma geração radical anterior. Mas sob esse tacto, e servida por essa ilusão, a esquerda fragmentou-se e perdeu todo o sentido de objectivos partilhados.

Pelo contrário, a “esquerda” ganhou uma aparência bastante egoísta. Nesses anos, ser de esquerda, ser radical, era ser egocêntrico, arrivista, e curiosamente provinciano nas preocupações pessoais. Os movimentos estudantis de esquerda estavam mais preocupados com as horas de fecho dos portões das universidades do que com as práticas laborais fabris; os filhos universitários da classe média alta italiana espancavam polícias mal pagos em nome da justiça revolucionária; palavras de ordem irónicas, alegres, exigir a liberdade sexual, substituíam contestações proletárias coléricas aos exploradores capitalistas. Isso não significa que a nova geração de radicais fosse insensível à injustiça ou à malfeitoria política: os protestos do Vietname e os tumultos raciais dos anos sessenta não foram insignificantes. Mas estavam divorciados de qualquer sentido de propósito colectivo, sendo ao invés entendidos como prolongamentos da expressão pessoal e cólera individuais.

Estes paradoxos da meritocracia – a geração dos anos sessenta foi acima de tudo uma consequência secundária bem sucedida dos mesmos Estados-providência sobre os quais despejava todo o escárnio juvenil - reflectiam uma falta de firmeza. As antigas classes patrícias tinham dado lugar a uma geração de engenheiros sociais bem intencionados, mas nenhuma delas estava preparada para o descontentamento radical dos seus filhos. O consenso implícito dos decénios do pós guerra fora agora rompido, e um consenso novo, decididamente artificial, começava a surgir à volta da primazia do interesse privado. Os jovens radicais nunca teriam descrito assim os seus propósitos, mas era a distinção entre liberdades privadas louváveis e constrangimentos públicos penosos que mais lhes inflamava as emoções. E essa mesma distinção, ironicamente, também definia a nova direita que despontava.


sábado, 12 de maio de 2018

MARCELO E A DIPLOMACIA PORTUGUESA


O PROTESTO DA ASSOCIAÇÃO SINDICAL DOS DIPLOMATAS PORTUGUESES
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Por ocasião da condecoração dos irmãos Sobral com o grau de comendadores da Ordem de Mérito, no aniversário da sua vitória no Festival da Eurovisão de 2017, Marcelo nos elogios que teceu aos dois cantores afirmou a dada altura que eles são embaixadores mais qualificados e mais eficientes do que a generalidade da nossa diplomacia”.

Os miúdos, que, pelos vistos, são bons e de quem os portugueses gostam, ficaram maravilhados com a sinceridade do Presidente da Repúblico. No público, em geral, a declaração do PR foi também acolhida com agrado.

Esta seria mais uma não notícia ou uma notícia cujo relevo ficaria circunscrito à efeméride que a ditou, sem prejuízo do interesse e da honra que aquela condecoração e os elogios do PR terão pela vida fora para os manos Sobral, não fora dar-se o caso de a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP) ter vindo, dias depois, qual virgem ofendida, lamentar que o Presidente da República tenha vindo com as suas palavras pôr (eles dizem “colocar”) “em causa a competência e profissionalismo de toda uma carreira especial do Estado, denegrindo a sua imagem e, como tal, a própria credibilidade das instituições públicas”.

De facto, as declarações do PR teriam ficado por ali e teriam sido compreendidas pelo significado que realmente têm não fora este ridículo protesto da ASDP. O Presidente limitou-se a dizer aquilo que é óbvio: que um feito individual ou colectivo, alcançado por um cidadão, uma equipa ou um grupo de pessoas de um qualquer país, imediatamente amplificado e repercutido nos quatro cantos do mundo ,vale mais, incomparavelmente mais, para esse país do que a acção de todos os diplomatas juntos num ano ou em vários.

Só mesmo um corporativismo retrógrado de feição medievalista, postiçamente snob, inseguro quanto ao seu valor pode reagir tão epidermicamente a uma afirmação que qualquer cidadão normal interpreta no sentido que ela realmente tem. É caso para perguntar, tão despropositado é, aparentemente, o protesto, se por detrás dele não estará a subliminar necessidade de defender o estatuto de que os diplomatas gozam, frequentemente acusados de na função pública beneficiarem de privilégios e mordomias que nenhuma outra classe profissional tem. Estatuto que alguns têm tentado justificar com o argumento, falso, de que nenhuma outra classe profissional na função pública tem de ultrapassar provas de acesso tão exigentes quanto as da carreira diplomática.

Basta falarmos na carreira dos médicos especialistas nos hospitais públicos, na carreira universitária e na magistratura judicial para imediatamente se perceber que aquela afirmação é falsa e também demagógica quando reiterada. Mais: todas estas são carreiras cujo progresso está sujeito à prestação de provas públicas ou actos escrutinados por todos os cidadãos sem compadrios corporativos de pares ou de responsáveis políticos.

E fiquemos por aqui no muito mais que se poderia dizer quanto à “substância” da função e da sua contingência em função do pais que a integra….

quarta-feira, 9 de maio de 2018

SOBRE O IRÃO E A COREIA DO NORTE


A INTERVENÇÃO DE DUARTE DE JESUS NA RTP 3
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Muito boa a intervenção do Embaixador Duarte de Jesus, na RTP 3, comentando a  denúncia pelos Estados Unidos do Acordo Nuclear com o Irão e as negociações com a Coreia do Norte.

É raro, muito raro, ver um diplomata português com aquela liberdade de linguagem e de apreciação crítica relativamente à política americana tanto no que respeita ao Irão, como no que respeita à Coreia do Norte.

Dir-se-á que é hoje mais fácil comentar sem os habituais freios e lugares comuns a política americana por na Casa Branca estar Trump. Não é verdade. Ainda ontem ouvimos os habituais comentadores de política internacional actuarem com muita prudência, quer dizer, reverência, face aos Estados Unidos. E vemos também como falam os que têm ou já tiveram responsabilidades institucionais.

A própria Ana Lourenço, a quem os seus convidados "lavam diariamente" a cabeça, viu-se forçada a ter que reformular as suas perguntas ou a vê-las desautorizadas nos seus pressupostos pelos assertivos comentários de Duarte de Jesus, sempre muito fundamentados factualmente e politicamente alicerçados num saber de experiência feito.

Duarte de Jesus disse coisas interessantes. Primeiro, que é muito importante a União Europeia manter-se unida no respeito pelos compromissos assumidos perante o Irão e as outras duas potências do Conselho de Segurança (Rússia e China). O que por outras palavras quer dizer que ele não dá por seguro, como ninguém com um mínimo de experiência destas coisas pode dar, que não possa haver deserções ou "meias deserções" na UE (e escusado será dizer de quem). Segundo, que a abertura de negociações com a Coreia do Norte não ficou nada a dever-se às ameaças de Trump e à sua política de força. Antes pelo contrário. Ficou muito mais a dever-se às duas Coreias, nomeadamente à ultrapassagem que a Coreia do Sul teria feito aos Estados Unidos, e, evidentemente, à China; considera porém que é muito cedo para deitar foguetes, quanto mais não seja por estar muito longe de ser unívoco o sentido que ambas as partes estão a dar ao conceito de desnuclearização. Terceiro, que em 1990 os democratas (Madaleine Albrigth) tinham as negociações muito adiantadas com a Coreia do Norte e os republicanos, mal chegaram ao poder, desfizeram tudo o que tinha sido feito. Portanto...



Parabéns a Duarte de Jesus pela sua excelente intervenção.



Independentemente desta intervenção, não deixa de ser intrigante a posição americana relativamente ao Irão. Qual o interesse estratégico dos Estados Unidos? O próprio DJ se interrogou. A questão não é de fácil resposta, embora não seja arriscado adiantar que são as alianças americanas no Médio Oriente que ditam esta política – Israel e Arábia Saudita. Sendo ambos contra o acordo, que obviamente os enfraquece, na medida em que permite fortalecer política e economicamente a potência historicamente mais importante e incomparavelmente mais antiga da região, os Estados Unidos, segundo uma corrente muito em voga no Congresso, corriam o risco a prazo de perder o apoio incondicional daqueles dois países e pouco ou nada ganhavam em troca. É claro que esta tese assenta num pressuposto certo e noutro errado. O certo é o enfraquecimento (relativo) inevitável de Israel e da Arábia Saudita; o errado é supor que tanto um como outro podem sobreviver com um mínimo de importância, ou até pura e simplesmente sobreviver, sem os Estados Unidos. Portanto, estrategicamente quem estava condicionado eram eles e não os Estados Unidos. Era e é isto o que Obama pensa e com ele muita gente na América e fora dela.



A outra questão tem a ver com a Coreia do Norte. Em primeiro lugar, um Estado que rasga tratados, ou não ratifica tratados que toda a comunidade internacional ratifica, não é um Estado fiável. Um Estado que negoceia com a Líbia um acordo de desnuclearização e pouco depois permite que o subscritor líbio desse acordo seja assassinado ignominiosamente aos olhos de todo o mundo e simultaneamente agride directa e indirectamente a própria Líbia não é um Estado fiável! Um Estado que negoceia durante anos um acordo com o Irão e logo a seguir o rasga por ter havido uma mudança de inquilino na residência presidencial não é um Estado fiável!

Hitler fez o mesmo aos diversos acordos que negociou e assinou. E o resultado viu-se.



Portanto, a Coreia do Norte, que apenas aspira a ser um Estado como os outros na comunidade internacional, sem ter de vigiar dia e noite as suas fronteiras com receio de ser invadida ou atacada, só pode acordar o que quer que seja, por muito boa vontade que também haja da actual Coreia do Sul, se alguém suficientemente forte for “fiador dos americanos”. Alguém que possa garantir à Coreia do Norte que não será agredida, alguém em quem a Coreia do Norte possa confiar. Sem essa garantia não vemos que possa haver acordo, por maior que seja a boa vontade de ambas as Coreia.


sábado, 5 de maio de 2018

O PS NO SEU LABIRINTO





E NÃO ESTÁ SÓ
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A estratégia conjugada da acusação da "Operação Marquês" e a campanha em curso da direita, de que as transmissões da SIC são a sua mais visível manifestação, puseram o PS em pânico.
A representação política da direita, ou seja, o CDS e o PSD, mantiveram até há bem pouco tempo o "caso Sócrates" fora da agenda política. Recentemente, depois do efeito na opinião pública das transmissões da SIC e da "acusação pública" de Pinho pelo MP, a direita pela mão dos seus múltiplos comentadores de serviço começou a pôr em prática uma actuação que visa alastrar a todos os que participaram nos governos Sócrates e ao próprio Partido Socialista a responsabilidade pelo que se passou. Responsabilidade por terem silenciado o que tinham obrigação de ter visto e responsabilidade (objectiva) de terem participado num "Governo criminoso". E tudo indica que haverá uma intensificação dos meios em que esta estratégia assenta com a aproximação da data das eleições. Tanto o MP, como o PPD/CDS, tudo farão para que o tratamento judicial e para judicial do "caso Sócrates" coincida com o tempo eleitoral.
Enredado por esta estratégia da direita, o PS parece ter começado a agir casuisticamente num "salve-se quem puder" de que são exemplos mais significativos as propostas de Ana Gomes e as declarações de César e Galamba.
É cedo para antecipar as consequências de tudo isto, embora não seja difícil de estabelecer uma ligação muito íntima entre a corrupção e o populismo. O populismo que nos Estados Ocidentais, nomeadamente nos EUA e nos da Europa Comunitária, tem andado ligado a fenómenos identitários, e, em menor medida, a outros potenciados pelas políticas económicas e financeiras da UE, pode encontrar no fenómeno da corrupção um campo de fértil expansão.
Contra isto o PS pode fazer pouco e o PPD, se não estiver directamente interessado no populismo, ainda menos porque eles são realmente, juntamente com o CDS, o alfobre onde, desde o começo das privatizações e da recomposição dos grandes grupos económicos, medra a corrupção. Seja a corrupção de que alguns individualmente se aproveitam, seja a corrupção que leva à protecção e favorecimento ilegítimo das grandes empresas numa troca de favores e de influências escandalosas cujas vítimas indefesas são os que vivem honestamente do seu salário.
Neste movediço terreno tanto o PS como os partidos de direita que têm governado o país terão muito mais a esconder do que a exibir, cabendo aos que têm as mãos limpas prevenir a provável onda populista denunciando e investigando politicamente toda essa enorme teia de ligações entre o poder e as empresas de que são exemplos mais significativos as privatizações ruinosas, os contratos de longa duração destinados a transferir significativos recursos colectivos para o sector privado, como as concessões de exploração de bens e serviços essenciais, as PPP, os resgates bancários entre outros. Ou seja, somente contra atacando pelo lado certo se poderá desmontar a estratégia da direita.
Ponto é saber quem pode participar no contra ataque...

sábado, 28 de abril de 2018

ANDRÉS INIESTA


HOMENAGEM A INIESTA
Andrés Iniesta


Despediu-se hoje do Barcelona Andrés Iniesta, um dos maiores jogadores de futebol dos tempos modernos. Vinte anos depois de ter ingressado no Barcelona, Iniesta anunciou que no fim desta época porá termo à sua participação na equipa catalã.
Pode não ter ganho os títulos individuais mais sonantes nestes dezasseis anos em que alinhou nas equipas principais do Barcelona e de Espanha, mas ninguém se compara a ele nos títulos colectivos que conquistou, fazendo justiça ao princípio de que o futebol é antes de qualquer outra coisa e acima de qualquer outra coisa um desporto colectivo.
Iniesta nunca sentiu a frustração de não ter ganho os prémios individuais que merecia. Os recordes individuais não constituíam a sua grande ambição como grande jogador de equipa que foi. O seu grande objectivo sempre foi  o de juntar à elegância e inteligência do seu futebol a vitória da equipa em que alinhava, contribuindo para essas vitórias com a indiscutível classe de ser o melhor jogador de equipa das competições em que participava
Essa a razão por que nenhum outro jogador no mundo somou nos últimos dezasseis anos tantos e tão importantes títulos colectivos como Iniesta


Campeão da Europa de Sub 17 (Espanha)
Campeão da Europa de Sub 19 (Espanha)
Oito Ligas de Espanha (Barcelona)
Seis Taças do Rei (Barcelona)
Sete Supertaças de Espanha (Barcelona)

Três Taças da Catalunha (Barcelona)

Quatro Ligas dos Campeões Europeus (Barcelona)
Três Supertaças Europeias (Barcelona)
Três Campeonatos Mundiais de Clubes (Barcelona)
Dois Campeonatos da Europa (Espanha)
Um Campeonato do Mundo (Espanha)


A Espanha vai sentir a falta do seu maior jogador deste século…









segunda-feira, 23 de abril de 2018

O NAMORO COSTA-RIO




QUEM GANHA, QUEM PERDE
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As opiniões sobre o recente “namoro” entre Rio e Costa, que mais frequentemente se têm ouvido, são muito convergentes: Costa tem tudo a ganhar, Rio, tudo a perder.

Lobo Xavier, que é voz mais autorizada do lado do CDS no comentário político, foi peremptório na última Quadratura do Círculo – considera incompreensível que, a cerca de um ano de eleições legislativas, Rio se preste a este espectáculo com Costa, subscrevendo um acordo sem conteúdo, mas cheio de valor simbólico; é ainda de opinião que, tendo o CDS tudo a ganhar com este posicionamento do PSD, Rio tenha tudo a perder com este aval que concede a Costa do qual se não percebe quais possam ser as contrapartidas.

Do lado da direita do PS, o acordo é aplaudido com entusiasmo. Jorge Coelho, cuja paixão socialista rejuvenesceu com o seu reingresso na administração da Mota-Engil, foi categórico: tudo o que é bom para o país, é bom para o PS e também para o PSD.

Do lado de comentadores, ditos independentes, enaltece-se a habilidade política de Costa, capaz de conseguir acordos à direita e à esquerda, qual mago da política.

Analisando com mais atenção o que se está a passar talvez as coisas não sejam bem assim.

Costa chegou ao poder com uma votação minoritária, mercê do apoio concedido pela esquerda - Bloco, PCP e Verdes. O Governo, embora sempre tenha sido um Governo PS, com tudo o que esta expressão encerra, era tido interna e internacionalmente como um governo à esquerda. Um governo que tinha uma orientação de esquerda, não apenas em consequência da execução das medidas que constam das posições comuns acordadas entre o PS e cada um dos partidos que no Parlamento o apoiam, mas também – e principalmente – por essas medidas terem sido negociadas com partidos de esquerda. Partidos que no seio da UE estão em todo lado arredados da área do poder. Era este simbolismo que conferia ao governo do PS a novidade de um governo à esquerda liderado por uma força do establishment da União Europeia.

O acordo com os partidos de esquerda que o apoiam representava muito mais do que o simples cumprimento das medidas acordadas, tão óbvias elas seriam há uns anos atrás - representava simbolicamente um rumo e uma escolha relativamente à ortodoxia dominante e era uma fonte inspiradora de novos percursos no seio da União Europeia.

E tanto assim era que nas recentes eleições do PSD para a liderança do partido este assunto foi amplamente debatido entre os concorrentes e ponto de fractura entre as duas correntes em confronto. Uma, a de Santana Lopes, na esteira de Passos e do exemplo do seu governo, entendia que o PS tinha feito a sua escolha e com ela deveria ficar, posicionando-se o PSD no bloco de direita, aliado ao CDS, como alternativa frontal àquelas políticas e acima de tudo àquele simbolismo que o Governo PS representava. A outra, a de Rui Rio, com um entendimento diametralmente oposto: conhecedor da natureza de PS, Rio sempre defendeu que o PSD tudo deveria fazer, apesar de ser oposição ao PS, para o retirar da dependência das forças de esquerda. A sua opção era igualmente muito clara, embora oposta à de Santana. Tal clara que até Ferreira Leite, tributária do pensamento cavaquista e por isso pouco dada a entendimentos com quer que seja, considerava que no actual contexto o mais importante era desatrelar o PS da esquerda, nem que para isso fosse necessário “vender a alma ao diabo”!

Portanto, depois deste debate o PS não poderia deixar de perceber e de antecipar o que significariam os seus entendimentos à direita por maior ou menor que fosse conteúdo prático dessa convergência. Eles teriam sempre a grande carga simbólica de representarem a vitória da linha vencedora no seio do PSD relativamente ao que era necessário fazer para retirar o PS da órbita da esquerda.

Por outro lado, enganam-se os que supõem que Rio sacrificou às suas mais arreigadas convicções ideológicas o eventual sucesso de um próximo resultado eleitoral. Não parece ser essa a intenção de Rio, bem pelo contrário. Rio somou às suas convicções ideológicas a esperança de um resultado eleitoral bem melhor do que aqueles que o PSD tem tido em últimas eleições.

O raciocínio de Rio parece fácil de compreender. Rio entende que se criar no eleitorado a ideia, fundada em factos, de que existe uma boa relação com o PS e de que essa relação pode dar frutos a curto prazo, será de esperar que uma parte do seu eleitorado oscilante, de centro – e que nas últimas eleições abandonou completamente o partido – volte a votar PSD, deixando o PS e que, por força desses mesmos sinais de entendimento com o PS, aquele outro eleitorado que se situa à esquerda do PS deixe de votar nele, e vá a votar nos partidos à sua esquerda, nomeadamente no Bloco já que este tem sido o partido que com mais facilidade absorve o descontentamento ou a desconfiança de um certo eleitorado PS.

Ou seja, a ideia de Rio é a de que o PS perca votos à direita e à esquerda, fragilizando assim o seu peso eleitoral. Rio conta ainda com a influência da direita do PS e do seu peso tanto dentro do partido como no apoio que essa mesma direita dará publicamente aos resultados imediatos da sua proposta (entendimento ao centro).

E, por outro lado, não será difícil antecipar que a Esquerda sentindo-se traída por Costa, não precise de muito tempo para vir a terreiro reivindicar o que de mais positivo para a vida das pessoas se fez nestes últimos dois anos, atribuindo esses êxitos à sua persistente e perseverante influência na governação PS, sem a qual teríamos um PS absorvido (como parece já estar) pela obsessão do défice, pelo zeloso cumprimento das regras europeias à custa dos mesmos de sempre, pela continuação da desregulamentação laboral, da perda de direitos e garantias sociais e por outras e mais perigosas manobras, aliás muito possibilitadas pelo facto de muitos dos intervenientes nesta governação, directa e indirectamente, já terem participado noutras com os resultados que se conhecem.

É difícil neste momento dizer se Costa já deu passos irreversíveis no sentido de um entendimento ao centro ou se apenas quis exibir publicamente a facilidade com que pode mudar de parceiro, pressionando os seus actuais companheiros de percurso com vista a amenizar as suas reivindicações. Seja uma coisa ou outra é um caminho perigoso que frauda a confiança de quem, não sendo do seu partido, o apoia dentro e fora do Parlamento.




sábado, 21 de abril de 2018

A REYERTA DE ALSASUA




MAIS UM EXEMPLO DO SISTEMA PENAL ESPANHOL
La juez Lamela deja en libertad a cuatro de los siete encarcelados por la agresión de Alsasua

Alsasua é um pequeno município da Comunidade Foral de Navarra, perto de Pamplona, situada numa zona politicamente dominada pela Esquerda Abertzale.

No País Basco e em Navarra, de predomínio basco, existe um conflito patente, não obstante a dissolução da ETA na próxima primeira semana de Maio, entre ambos os nacionalismos – o espanhol e o basco. O espanhol representado pelas autoridades repressivas, do lado basco pelas massas populares que o apoiam, predominantemente jovens, com ressentimentos profundos de ambas as partes. Do lado de Espanha, as vítimas da ETA, do lado basco, as vítimas da repressão espanhola.
Não estamos a pôr no mesmo plano, os atentados da ETA e a repressão espanhola, estamos apenas a descrever a natureza desse conflito e as suas consequências. Os atentados da ETA atingiram muita gente, deixaram marcas profundas na sociedade espanhola, foram muitos os anos de insegurança, medo e ansiedade. Tudo isto é certo. Como certas também são as feridas deixadas no sociedade basca, ou numa parte muito considerável dela, pela repressão espanhola. 

Durante os últimos 40 anos, a Espanha tem actuado no País Basco à revelia de qualquer censura internacional digna de realce, muito por causa da violência da ETA. Ou seja, a actuação da ETA foi justificando, sem censura, os múltiplos atropelos ao Estado de Direito no Pais Basco. Por mais graves que tivessem sido estes atropelos, como os GAL e as torturas denunciadas pelos presos, a violência da ETA, algumas vezes absurdamente arbitrária, tudo justificava e ninguém se atrevia a censurar a Espanha. Simultaneamente, a sociedade espanhola foi-se radicalizando relativamente a esta questão a ponto de como resposta aos atentados da ETA ser frequente ouvir, em conversas mais ou menos informais, que um “bom etarra, é um etarra morto”.  

Engana-se quem supuser que com a cessação dos atentados, a anunciada dissolução da ETA e inclusive do próprio pedido de perdão da “banda”, as coisas passaram a ser radicalmente diferentes. Não passaram. A grande diferença é que a ETA deixou de praticar atentados,  desarmou-se e foi desarmada. Fora isto – que seria em qualquer outro país o mais importante – tudo se mantém mais ou menos na mesma. A mesma intolerância, o mesmo radicalismo, o mesmo ódio, o mesmo desejo de vingança. Engana-se também quem supuser que em Espanha se poderá passar algo de semelhante ao que se passou no Reino Unido depois dos “Acordos de sexta-feira Santa”. Ou o que se passou noutros países europeus depois de derrotados movimentos violentos de extrema esquerda ou de extrema direta. Aliás, o governo, depois do já referido pedido de perdão, foi muito claro: não haverá contrapartidas.

Os condenados da ETA continuam e continuarão presos, muitos deles a cumprir penas de prisão muito superiores à sua esperança de vida, em prisões muito distantes do País Basco;  outros que entretanto venham a ser apanhados terão penas idênticas aos que estão presos; qualquer manifestação de homenagem às vítimas da polícia espanhola corre o risco de ser punida como apologia do terrorismo; os direitos políticos de ex-presos da ETA ou das suas fileiras “civis” podem ser cerceados pelos tribunais, ou seja, por outras palavras: não existe em Espanha a grandeza do perdão, embora comedido e gradual. O que existe é sede de vingança.

De um lado e do outro os rancores alimentam-se mutuamente sem sinais de mudança.

Vem tudo isto a propósito de uma rixa ocorrida numa taberna de Alsasua entre um grupo de jovens e dois guardas-civis à paisana – um de Córdova, outro de Valencia, em serviço na Comunidade de Navarra – acompanhados das suas namoradas.

As testemunhas presenciais dão a entender que nada de especial se passou, salvo provocações recíprocas, enquanto os depoimentos das vítimas e os da polícia foral de Navarra, que terá vindo em socorro dos guardas-civis, descrevem um clima de ódio e violência traduzido em agressões e de insultos.

Não é todavia difícil de aceitar que os guardas tenham sido provocados pelos jovens, que tenha havido discussão, insultos e agressões. Em qualquer país estes factos seriam punidos, podendo a punição variar em função da qualidade das vítimas e da gravidade das agressões. Também não haverá dúvidas de que os jovens sabiam que se tratava de guardas-civis, apesar de não estarem fardados.

O crime por que seriam acusados seria certamente o de insultos e agressões à autoridade. Em Espanha, tudo é diferente. Os tribunais de Pamplona qualificaram o crime tal como ele objectivamente decorre dos factos. Acontece que o Supremo, contrariamente aos tribunais de Pamplona, considerou por unanimidade que havia sérios indícios de terrorismo, razão pela qual o caso foi remetido para a Audiência Nacional para instrução e julgamento -  Audiência Nacional ,o tal “tribunal plenário” da “democracia” espanhola. Sete dos oito acusados foram presos preventivamente, sem admissão de fiança, tendo a “fiscalia” daquele tribunal, secundada pela “nossa conhecida” juíza Cármen Lamela, acusado os jovens de vários crimes de terrorismo e pedido, para sete deles, uma pena de prisão de 50 anos acrescida de 12 para um deles! Ou seja, 375 anos de cadeia para conjunto dos oito acusados e uma indemnização de 41. 100 € para as quatro vítimas das agressões. O que também dá para perceber que em Espanha os símbolos valem muito mais que as pessoas…

Em qualquer país realmente democrático isto não seria possível. Se o MP tivesse a ousadia, em conivência com o juiz de instrução, de pedir penas daquela natureza, estamos certos de que, pelo menos, uma parte significativa da sociedade e da opinião pública se insurgiriam contra esta desproporção inaceitável à luz dos mais elementares princípios do Estado de Direito. O que acontece em Espanha? Com excepção dos nacionalistas bascos que protestam e se manifestam, governo de Navarra inclusive, o que se assiste em Espanha é a uma crítica severa aos que criticam os tribunais. A título de exemplo o editorial de ontem do El País! Isto significa que aquela desproprção se “alimenta” na própria sociedade!

Mais palavras para quê?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A DEMOCRACIA EM ESPANHA


E SE A EUROPA NÃO ENTREGA OS CATALÃES?
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As prisões e os delitos por que estão sendo acusados os independentistas catalães estão a ser postos em causa pelos tribunais de outros países europeus, da União Europeia e não só. Como tem sido noticiado, a Bélgica não atendeu o mandado de detenção europeia dos ex-governantes aí exilados quanto ao crime de “rebelião” (com excepção de Puigdemont, por o tribunal espanhol, por razões meramente tácticas, o ter revogado) e solicitou novos elementos relativamente ao de “malversacion” – uso indevido de dinheiros públicos.

Pouco depois, o Tribunal Superior de Schleswig-Holstein recusou a prisão de Puigdemont pelo crime de “rebelião”, por ausência de um elemento fundamental à integração do tipo legal de crime que no ordenamento jurídico alemão se assemelha à rebelião – alta traição – que é a violência. E, tal como o tribunal belga, solicitou novos elementos quanto ao de “malversacion”, tendo posto em liberdade o ex-presidente da Generalitat, mediante o pagamento de uma fiança relativamente baixa – 75 mil euros.

Se o crime de rebelião corre o sério risco de não ser reconhecido, não obstante os desesperados esforços que o Governo e o Supremo Tribunal vêm fazendo para convencer as autoridades estrangeiras de que houve violência, outro tanto se passa com o de “malversacion”, que ficou muito difícil de provar, mesmo internamente, depois de o Ministro da Fazenda, Cristobal Montoro, ter declarado que no referendo não foi gasto dinheiro do orçamento. Disse Montoro numa entrevista a El Mundo: “Não sei com que dinheiro se pagou as urnas chinesas de 1 de Outubro, nem a estadia (no estrangeiro) de Puigdemont. Mas sei que não foi com dinheiro público”. Se antes desta declaração já era difícil fazer aquela prova, até então assente numas tantas suposições de um relatório elaborado pela Guardia Civil, mais difícil ficou depois das declarações do responsável máximo pelas finanças do Reino de Espanha.

A propósito destas declarações assistiu-se a um fenómeno que seria insólito em qualquer democracia da Europa Ocidental, mas que, pelos vistos, em Espanha é perfeitamente normal. O juiz de instrução do Supremo Tribunal, Pablo Llarena, furioso por Montoro lhe ter posto em causa a acusação que tão laboriosamente engendrara com a “fiscalia”, exigiu que Montoro prove que não houve “malversacion”. O Juiz solicitou a Montoro que o informe “com a maior brevidade possível sobre os elementos em que baseia as afirmações de que no referendo ilegal de 1 de Outubro não foram gastos dinheiros públicos”. Portanto, não é à acusação e ao juiz (que com aquela faz parelha) que compete fazer a prova dos factos, mas sim àqueles que com toda a propriedade se podem pronunciar sobre o destino legal dos fundos a seu cargo. Quer dizer: acusação não tem de fazer a prova positiva dos factos, mas é ao responsável pelas finanças públicas que cabe a prova negativa dos mesmos. Espantoso! No Uganda, do “saudoso” Amin também seria assim?

Entretanto, na Alemanha, as coisas complicam-se para os espanhóis. Admitindo a hipótese de uma denegação de entrega, o Supremo, para além de todas as declarações pressionantes que tem vindo a fazer, actuando como um verdadeiro órgão político, de resto, com o apoio de políticos como Felipe Gonzalez e Manuel Valls (já lá iremos), sabendo que da decisão do tribunal superior do Land não há recurso para outros tribunais alemães, parece admitir a hipótese de solicitar uma decisão prejudicial ao Tribunal das Comunidades. O que também não deixaria de ser insólito, já que a regra e a praxe judiciária vão no sentido exactamente oposto. Ou seja, é ao tribunal ad quem, ao tribunal solicitado, que cabe fazer essa consulta se tem dúvidas sobre a interpretação do direito comunitário, e não ao tribunal a quo, ao solicitante. Porém, se a consulta se vier a fazer, o mais provável é que o Tribunal das Comunidades a receba e dentro dos habituais 15 meses diga, neste caso, o óbvio: se o crime previsto no mandado de detenção estiver tipificado entre os que constam do regulamento da euro ordem (e não está), a entrega tem de ser feita; se não estiver, a questão é da competência do tribunal solicitado que aplicará o seu direito nacional não cabendo ao tribunal comunitário interpretar os direitos nacionais.

A Espanha corre o sério risco de a uma derrota em tribunais nacionais europeus juntar uma outra no tribunal comunitário e então é que toda a estratégia do executivo cai por terra.

Como qualquer pessoa percebe, estas decisões jurisprudenciais não têm nada a ver com a questão política de fundo – a independência da Catalunha, mas com os atropelos ao Estado de Direito. Os protestos de Espanha e de todos os que apoiam a sua estratégia é que têm em vista politizar a justiça, ou seja, pretendem fazer o que se faz em Espanha: pôr os tribunais ao serviço de uma estratégia política!

E alguns, como Gonzalez e Valls (o coveiro do PS francês) fazem-no com a maior desfaçatez e a maior pouco vergonha. Disse Valls, ontem em Madrid: “A França teria entregado Puigdemont”. E Gonzalez considerou: “Preocupante que os juízes alemães qualifiquem em poucos dias o que a justiça espanhola está estudando há meses”.

Em Espanha, as decisões dos tribunais espanhóis, por mais absurdas que sejam, não se discutem. Nem Pedro Sánchez nem Iglesias se atrevem. Mas as dos tribunais alemães e belgas, essas já podem ser criticadas… E espantoso é também que Manuel Valls tenha tão afoitamente antecipado a hipotética decisão dos tribunais franceses, com base no argumento político de que as cisões nos estados europeus são muito prejudiciais ao futuro da Europa. É caso para perguntar: desde quando é que este argumento é válido? Desde a Segunda Guerra mundial ou desde 2008? E se Putin achar o argumento muito interessante, o que dirá Valls?

Estes políticos não valem um pataco furado!


quinta-feira, 19 de abril de 2018

A CONDENAÇÃO DE LULA

FINALMENTE, AS PROVAS!

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FIM DA LINHA PRA VOCÊ, EX-PRESIDENTE!

Fim da linha pra você, ex - presidente ladrão
mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação
isso é pra você aprender
que o pobre não tem direito a mais que uma refeição
Fim da linha pra você, metalúrgico boçal
isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social
com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira
a filha do pedreiro
Fim da linha pra você ex presidente aleijado
não é pelo triplex
que você está sendo condenado
é pela sua ousadia
em ajudar o garçom
a virar advogado
em contribuir
pra ascensão do negro favelado
que agora acredita
que pode estudar medicina
sair da miséria
e até conhecer a Capela Sistina
Fim da linha pra você, ex presidente bandido
isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação
é pra quem pode
e não é que pra quem quer
Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido
graças a sua insensatez
o filho da faxineira
chamou o meu filho de amigo
você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que pobre é gente
que agora pode usar aparelho nos dentes
ter casa própria e andar de avião
Fim da linha pra você, ex presidente imundo
isso é pra você parar com essa palhaçada
de estimular a minha cozinheira
a querer ter carteira assinada
era só o que me faltava
o proletariado sonhar com qualidade de vida
você devia saber
que essa gente nasceu pra me servir
e não pra servida
mas você é tão inconsequente
não enxerga um palmo diante do nariz
que fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar pra ser atriz
e fazer aula de inglês
essa pouca vergonha
é resultado
da sua insensatez
da sua irresponsabilidade desmedida
aprenda de uma vez
barriga vazia
e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada
foi querer mudar o mundo
se meteu numa enrascada
Fim da linha pra você, ex presidente imbecil
você está sendo condenado
não por ter roubado
porque isso não foi provado
seu erro
foi ser / fazer história
ser do tamanho do Brasil
ter oitenta por cento de aprovação popular
acreditar em igualdade
e saber governar.

Herton Gustavo Gratto